Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

Dois Amigos

                                                           Dois Amigos
 

[Dizem que a vida é um livro. Se calhar. E que temos capítulos da nossa vida. Provavelmente. Às vezes achamos que um encontra-se encerrado, apenas para nos surpreendermos ao abrirmos uma página ao acaso. Há certos capítulos que, curiosamente, talvez nunca se encerrem por completo. Esta é a história de um deles. Acerca de dois amigos.]

 

Estivemos ontem no jardim. Sozinhos, debaixo da grande árvore de fruto, como estivéramos assim já tantas vezes, e como nessas vezes, ele parecia estar lá mais devido a uma obrigação do que por vontade espontânea e sua. Sim, ele foi como é sempre: estático e ao mesmo tempo transbordando de vida, como alguém que não conhece a tristeza mas que não escapa também ao sofrimento.

Como costume, era eu que lhe falava de algo e as nossas discussões acabavam invariavelmente no mesmo assunto. A nossa relação. A nossa amizade e mais.

-Mas porquê? É isso que não entendo. Tratas-me, sei lá, como a um fardo, um empecilho. Nunca esperas por mim, nunca acompanhas o meu passo! Alguém que não nos acompanha o passo é porque, ou tem assuntos a tratar de máxima urgência, ou não quer a companhia da pessoa que o tenta acompanhar, neste caso eu!

            -Já pensaste – começou a retorquir-me ele da sua maneira placidamente condescendente, como se eu fosse uma criança a quem tivesse de explicar a ordem das coisas – que eu talvez, ao contrário de ti, tenha realmente uma vida e assuntos a tratar? Que possa simplesmente estar apenas com pressa? Mas afinal, porque interpretas qualquer movimento meu como um ataque à tua pessoa?

-Porque o são! São sim, não finjas! Ainda no outro dia, quando nos acompanhava aquela bela rapariga de sei-lá-onde, tu ficaste a falar com ela durante horas e horas a fio. Mais tarde, disseste-me o quanto não gostavas da rapariga mas quando eu tentei meter-lhe graça, falaste-lhe de mim como se eu fosse uma mula de carga! Quase se notava um asco ou um desprezo da tua parte, com o teu sorriso mesquinho… E é sempre uma humilhação. Porque o fazes?

-Se o faço (e isto é, se eu o realmente faço, de que estou seguro que não) é apenas sem intenção. Nem me lembro desse incidente que me falas, pois para já, se eu fiquei horas a fio a falar com uma rapariga de quem não gostava, era apenas porque necessitava de lhe falar e ela, se existe, foi certamente a primeira a saber que eu não gostava dela. É puramente um acidente, se eu te referi de forma pouco lisonjeadora. Tu é que o interpretas como humilhação. Tu é que, na mais pura das verdades, te humilhas a ti próprio.

Calei-me para meditar. O regato corria primaverilmente, como sempre, escapando ao seu tempo. Sentia já no ar o aroma a Inverno, com as suas tempestades. Mas era esta a estação que eu mais adorava, porque mais tempo passava eu com ele, e mais próximos ficávamos. Quando chegávamos a casa, molhados da chuva e nos secávamos aconchegados um ao outro, isso era o nosso Inverno. Mas ele acabava por arruinar tudo sempre com alguma frase vingativa, não que eu lhe tivesse feito necessariamente algum mal ou que fosse mesmo uma vingança da parte dele. Era verdade a sua boa intenção e magoava-me por dizer a verdade. As verdades de quem amamos são sempre mais difíceis de ouvir que as mentiras de um desconhecido. É por isso que sempre me descontentou ele nunca se incomodar com as minhas verdades.

-Não. Não pode ser – comecei eu – essa explicação não me satisfaz!

-Que outra explicação queres? Ora, ficas ai, todo indignado porque no outro dia não te prestei atenção ou disse-te algo que não gostaste? Aquela é a verdade, que outra explicação queres que eu te dê? Se ficaste decepcionado pela minha resposta, é porque esperavas demasiado. É esse o teu problema. És um romântico incorrigível. Ou esperavas um discurso asquerosamente comovente, ou algo de uma gargantuesca crueldade contra a qual tu te pudesses revoltar! Se não estás satisfeito, a culpa é tua, não minha!

-Vês? Mas porque és assim tão frio comigo? É como se renegasses as coisas que já me disseste.

-As coisas que eu já te disse já te as disse. Agora digo isto. És impossível de contentar. Agarraste demasiado ás coisas e procuras significado em tudo. Apenas irás sofrer quando descobrires que as coisas não têm significado. Irás ficar aliviado quando aperceberes isso acerca das coisas más que te faço, mas também irás sofrer ao aperceberes-te que, se sou um dia bom para ti… bem, não tem nenhum significado especial e nada tem a haver contigo. É apenas mais um dia.

-É disso que eu falo! Afastas-me, dizes-me as coisas mais cruéis! E depois censuras-me por ficar tão chocado. Já tantas vezes o tentei não ficar e dar a outra face, mas é impossível ignorar-te, sabes bem. És responsável por tanto na minha vida e por tanto daquilo que eu sou e tu não assumes a merda da tua responsabilidade.

-Elá, tento na linguagem! Tem calma! Eu não sou responsável de nada! Eu nunca te pedi nada e se vives como vives é de certo por tua culpa. Se tive alguma influência na tua vida, sim, e há dias às vezes em que me dera que não me conhecesses, a sério! Nunca me arrependi de ti mas magoa-me o quanto tu sofres por mim. Porém és tu que sofres por mim, não sou eu que te faço sofrer, por isso tento na linguagem e nesse assunto das responsabilidades.

Chateei-o. Acho. Será que eu sou importante o suficiente para ele ficar magoado comigo? Talvez. Ele diz sempre que não gosta do que me fez. Que se pudesse desapareceria da minha vida, sem passado, presente ou futuro para que eu continuasse na minha ignorante felicidade. Mas seria ignorante, e eu não sei ao certo se, agora que sinto aquilo que sinto e que me faz sofrer tanto, apesar de ser igualmente a única coisa porque eu vivo, dia após dia… se eu realmente quereria isso. Se ele desaparecesse da minha vida… Talvez fosse o melhor para ambos, mas eu sei que murcharia por dentro.

-Tu sabes que eu te amo. Dizes sempre que as pessoas que tu amas têm a consciência que são amadas por ti. Eu não a tenho. Não me amas?

Ele contemplou o jardim. Pensaria em quê? No quanto me amava, ou como me dizer simpaticamente que apenas sentia indiferença por mim?

-Não. – Dei comigo a falar sozinho. – Sei que não sentes indiferença por mim. Simpatizas comigo até certo ponto. Sei que já gostaste de mim. Que já sentiste carinho por mim e já mo disseste e que também me disseste que querias emendar todo o mal que me tivesses feito. E que sofro de um terrível complexo de inferioridade pela tua pessoa. Mas nunca chegaste a emendar nada. Continuas quem eras. Frio. Nunca me falas sem eu te falar primeiro. Nunca vens ter comigo. Nunca me pedes ajuda e fazes-me sempre sentir como se eu fosse um pedinte de atenção. Chego a ter nojo de mim próprio pela forma doentia de como necessito de ti. Mas desde que te conheço, que eu sei quem eu sou. Já pensei saber quem tu eras. Até tu me teres dito o contrário. E eu fiquei sem saber no que acreditar.

Houve quem me dissesse – continuei – amigos meus… que não me queriam ao pé de ti. Não me queriam como teu amigo. Porque tu me fazes mal. E é uma verdade. Eles dizem que seria melhor separarmo-nos e irmos caminhos diferentes. Mas sempre me pareceu que vivia sem saber o segredo que toda a gente parece saber acerca da vida. Até me sentiria mal, se eu não tivesse tanto a certeza que apenas fingem saber o segredo. Talvez o segredo até fosse fingir saber um segredo. Mas junto a ti, descobri-me. Sinto-me seguro e sei quem sou. A escolha é tua. Preciso que me digas se queres que eu fique contigo ou não. Preciso de saber…

A grande árvore de fruto sobre nós deixava escapar flores brancas, e antes que déssemos por isso, era como se houvesse nevado e estávamos repletos de pequenas pétalas maravilhosas de amendoeira, que apenas contribuíam ainda mais para a beleza dele. Os seus traços suaves, da sua longa e serena face. Os olhos pálidos, do cinzento das estátuas gregas de um Apolo rei. O cabelo longo, pendente até aos ombros, loiros e rubros como o Sol de todas as cores da aurora e amanhecer. Nenhum escultor te teria feito melhor, do que tu ainda és na minha mente.

-Amas-me?
 
 

Cai uma pétala.

Corre o ribeiro.

Tu suspiras.

E finalmente falaste.

-Porque me buscas a atenção? Todos os dias arranjas um estratagema de me obrigares a demonstrar-te carinho e afecto. Há dias em que eu faço exactamente o contrário para tu te aperceberes que não deves buscar a minha atenção. Eu nunca fui pessoa que dê muita atenção ás outras. Tu ficas magoado quando eu não fico triste por tu te ires embora, tu ficas magoado por eu não necessitar de ti tanto quanto tu necessitas de mim, ficas magoado por eu não me prender e tu encontraste preso por algo que tu próprio criaste. Tens inveja de pessoas que já não cá estão connosco, porque em tempos foram-me mais importante do que tu eras. Eu não necessito de ninguém. E sempre deixei isso bem claro. Eu avisei-te, desde que nos conhecemos, que não procurasses em mim … esse amor. Falas dos teus amigos, mas os teus amigos são ignorantes e preconceituosos, claro que eles não querem que sejas meu amigo. Mas eu sou teu amigo. Profundamente. Eles acham que fui eu quem te corrompi, mas eu não te fiz nada. Só te deixei fazer o que querias fazer. Até eu me ter aborrecido. Eu amo-te, sim… Mas não te posso dar amor.

-Então é verdade. Todos os dias, escondo o meu amor do mundo, escondo-o dos meus amigos e da minha mulher. Por medo de me reprimirem outra vez, de me repreenderem como fazem a uma criança que não aprende. Toda a gente me trata como uma criança, pensei que talvez tu não o fizesses. Mas acabaste-lhes de dar razão. Eu nunca aprendo.

-Todos te tratam assim porque é assim que tu te apresentas a todos. Eles vêm em ti uma criança porque tu queres que eles vejam uma criança. Eu não sei quem tu és. Procuras-te sempre em mim respostas que nem eu tenho acerca da minha própria pessoa, quanto mais a tua. Mas nunca te vi como uma criança.

-Já me odiaste.

-Já.

-Já me ignoraste.

-Já.
-E agora amas-me.

-Como a um belo amigo. Nada mais, e nada menos.

-Mesmo assim, são só palavras. As tuas acções irão magoar-me eternamente… Mas talvez os bons amigos se magoem eternamente também…


 

David João Filipe

 
música: Chopin - Nocturne in Cminor for piano
reflexo de turma 12º 12 às 14:17

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