Sábado, 17 de Maio de 2008

Avô

                Sento-me na sala. Fogueira na parede, costas para as portas, eu e o meu avô, que é o homem grande que vêm, afinal, não há mais ninguém para além de nós os dois, reconfortamo-nos no rubro vidro que se acende ao se desfazer. Nada dizemos, porque nenhum de nós sabe o que dizer. Tento dizer-lhe algo que ele goste, mas não sei do que ele gosta. Ele não necessita de quem lhe oiça mas de quem lhe fale. As pessoas ralham com ele como ralham a uma criança, mas não o mimam como mimam a uma criança, e isto é todo o dia, nos dias em que o vemos pelo menos. Uma semana no Natal, uma na Páscoa, duas no Verão e um telefonema nos anos. Oitenta anos de vida para isto.

            Quem és tu, avô? Qual foi a tua vida? Não deves ter lutado na Segunda Grande Guerra, para teres oitenta. Isso ou lutaste eras um rapazito, pouco mais jovem que eu. Sei que lutaste, talvez além-mar, nas colónias. Trabalhaste como condutor de comboios, esses monstros que não precisam que lhes conduzam, eles sabem aonde vão, têm estradas que não são estradas e condutores que não são condutores. Deram-te o emprego, pagaram-te mal, e agora tens a tua pequena fortuna, da qual não usas nada, ganha numa vida dura e injusta num trabalho desprezado. Sabes ler, sorte a tua. Acabaste mal na vida, viúvo, ignorante e sei lá mais o quê.

            Tens o peso da tua educação nos teus ombros. Falas do Eusébio como um negro que não sabia falar nem ser e que o capturaram, pois corria nu e estúpido lá nas selvas de África. É o que dizes tu. Tens os teus problemas, que todos os velhos têm, mas sofres menos deles que a maior parte possa dizer, no entanto o queixume é o dobro. É o que diz o meu pai, aquele grande homem que se parece com o meu avô mas mais novo. És ingrato, cospes no chão e queixaste-te de tudo e todos, azedume, como diz a minha mãe, que já não é um homem grande, mas não deixa de ser uma grande mulher. E então, no meio disto tudo, não tens quem te dê atenção nem quem converse contigo, só ouves nas orelhas do meu pai e da minha mãe, és ludibriado por vendedores e peixeiras que te vêm como um poço e não como pessoa, e eu que sou teu neto, não sei como te falar e faço um sacrifício de estar aqui contigo enquanto todos estão a fazer sei lá o quê.

            Pego nuns jornais e distraio-me uns fúteis momentos a desfazê-los e atirar as suas carcaças ao fogo, onde o papel revela a sua forma original, o pó. O fim é a revelação, o apocalipse de que São João fala, o revelador. Quem te irás revelar, antes que tu reveles a tua forma, avô?

            Será que tu sabes que tenho pena de ti? Parece que esperam a tua morte, tentam despachar-te, fazem orelhas moucas, quando mais depressa calares-te mais sossego há.

            Quem me dera, quem me dera apenas arrancar-te daqui. Levar-te longe, comprar-te casa, casa digo, casa limpa e não aquela caverna monstruosa que tens, cheia de teias, mijo nas paredes e bolor no chão, mas que farias nessa casa? Deixarias as teias crescer, mijarias no chão e verias o bolor fermentar nas paredes. Não terias quem te ligasse, eu tento ligar-te mas não é fácil, não. Como se fala a quem não se sabe se quer falar. Tu queres falar. Fazes piadas, mas ninguém entende as tuas piadas. Tu tentas ser parte de uma família que te tem mas não te tem porque nunca te teve.

Isso, isso, fala mal da bola. Disso já eu sei. Falar mal dos futebolistas, lá vem outra vez a conversa do Eusébio. Sorrio e não ligo. Não sou melhor que os outros, como se pode falar com alguém que simplesmente… Não vale a pena. Poucos anos tens de vida avô, e vais passar estes últimos anos antes de morrer um cadáver ambulante, falando sim, mas sem ser escutado. Mas eu agora escuto-te… Mas não te escuto mesmo, porque se não te respondo, como sabes tu que te escuto? Como sei eu sequer que te escuto? Ignoro-te apenas, sorrio ignorantemente, um sorriso desonesto e falso, para te fazer sentir apreciado. Sou um ladrão da tua felicidade, sou mau e sujo, não te devia fazer isto, mas não sei que outra maneira te ajudar.

          Pai, é isto que acontece? Vive-se e torna-se uma fralda antropomórfica, como tu dizes, vivendo como os bebés, comendo, dormindo e cagando? É isto que queres que te aconteça, Pai?

            Boa noite.

            Ele vai e deita-se… Boa noite avô, boa noite. Vive mais nos sonhos que vives na vida, provavelmente. Com que sonhas? Com que sonha o homem que não tem porque sonhar? Nem sonhos podes sonhar ter, nem esperanças. Esperanças de quê? O tempo é tardio, Ricardo Reis resmunga no seu refrigério resguardo, e tu nunca mais serás uma pessoa. És um bebé órfão, sem quem te ame e quem te cuide. Isto é, sem obrigação.

            Quem és, avô? Quem sou eu para ti? Porque é que avô e neto não se podem dar como avô e neto? Preciso de falar contigo avô, porque tu precisas de falar comigo. Antes que seja demasiado tarde.

 

                                                           Bernardo Cão 

reflexo de turma 12º 12 às 18:55

link do reflexo | reflectir | favorito
1 comentário:
De pirua/pirum a 19 de Maio de 2008 às 15:29
bolazzzz! não quero chegar a velho! que trauma! n devo lá chegar, mas pelo sim, pelo não, vou comprar uma parafernália vitalícia de tena pants para óme!
agora a sério, lembrou-me de muitos velhotes que (coitados) tive de animar! mt a sério, não quero chegar a velho!

Comentar reflexo

. por detrás dos reflexos

.pesquisar reflexos

 

.Novembro 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Reflexos Recentes

. Vandalismo Virtual

. Uña Experiência

. 091009

. Tempo

. K.O.ALA

. Obstinação

. Destino, a pedido

. (...)

. Por Favor

. Onanismo

. Sinos tocam no horizonte ...

. A Era da Igualdade

. Origem

. Onanismo

. É intenso

. Reflexos... pensamentos, ...

. Descrições de Uma Planaçã...

. Thesaurus

. A Título

. Hoje tanto faz

.Arquivos

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

.tags

. todas as tags

.Outros Reflexos