Sexta-feira, 20 de Outubro de 2006

Uma Vida de Duche

   Lembram-se daquele momento, hoje de manhã, quando estão a tomar o duche? Aquele momento em que sentem a água a escorrer pelas vossas costas e pensam como teria sido bom ter ficado na cama? Lembram-se desse momento?
   Hoje adormeci no chuveiro. Meia hora mais tarde e uns quantos molares a menos, acordei com a minha cabeça ensanguetada no piáça e continuava com o sentimento. Vivi com ele toda a minha vida, e verdade seja dita, sabemos que o sentimento nunca irá desaparecer, por mais que nos digam o contrário.
   A verdade é que a minha vida, e a vida de todas as pessoas em geral, perde o sabor aos dez anos. Depois disso torna-se numa pastilha elástica velha e desgastada que irá parar no sapato roto de alguém. Depois dos dez, já não temos aquela sensação de segurança no dia a seguir da Véspera de Natal ( ou seja, o dia de Natal). Depois dos dez, já não temos casa. Nem família. Nem auxílio. Só esperança. Esperança que nos tirem deste filme francês que é a nossa vida e nos ponham num "blockbuster" com a Marylin Monroe. Ou a Monica Belluci. Tanto faz.
A partir dos dez é que me apercebi que não ia ser o John Lennon. Percebi que não ia ser nem Einstein, nem Picasso. Só havia uma solução.
   Agarrei-me ao que pude de forma a construir uma vida. Desisti da fama, do dinheiro, do amor e dos sonhos. Só uma vida. Só um leitor de DVD's. Só uma televisão Sony com sound surround, cinema em casa, alta definição, reprodução videocassete, sofá em cabedal, conjunto casa-de-banho moderna "Crystal" com retrete de porcelana chinesa.
   Mas de nada me valeu a pena. Já há algum tempo que me passaram os dez e ainda continuo com o sentimento de querer estar na cama, quentinho, protegido da realidade, a dormir. Pois nos sonhos encontro-me a mim próprio. Não um "eu" com vida e leitor portátil de CD's e MP3's. Encontro-me com o miúdo de dez anos. Encontro o Paul, o George, o John, o narigudo do Ringo. Encontro uma mãe, encontro um Buda, encontro uma morsa e encontro um pai.
   E acordo para a vida. E para descobrir algo. Algo de que sempre me apercebi, mas tentei ignorar, enquanto percorria as noites enevoadas e solitárias. De como tentei, a partir dos meus dez, controlar a vida. Tentei agarrar-me de tal forma à esperança de ter uma vida minimamente apresentável que esqueci que eu nunca quis uma vida minimamente apresentável. Quis a minha vida. A vida que não pode ser controlada, nem enjaulada ou guiada. A vida que se encontra na nossa cama, antes de tomar o duche. Encontrei a minha vida, os meus sonhos e os meus deuses. Encontrei-me a mim.
 
     David João Filipe
reflexo de turma 12º 12 às 15:43

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