Sábado, 13 de Outubro de 2007

Pessoa de Pessoas

              É-me difícil dizer se este texto se encontra ou não acabado. Neste momento, tudo o que sei dele, é que é o lado B do "Parvos":


                                             Pessoa de Pessoas

 

Eu não sou uma pessoa de pessoas. Eu não gosto de pessoas. Eu não gosto de grupos. Não gosto de andar de comboio, autocarro e metro, porque estão sempre cheios de pessoas. Não gosto de andar nas ruas, porque andam lá sempre pessoas. Detesto edifícios públicos, como as escolas, as câmaras , os pavilhões, os teatros, cinemas, centros comerciais, as praias, os parques, detesto tudo isso. É um peso enorme andar no meio da multidão.

            Gosto de falar com alguém, sim. As minhas noites mais bem passadas foram passadas a falar, no meu quarto. Mas só gosto de ter comigo uma pessoa de cada vez. E as pessoas que queiram ficar junto de mim têm que ser pessoas especiais. Têm de saber rir e saber chorar. Saber do que eu falo sem explicar. Têm que me amar e, mais que isso, eu tenho de amá-las. É por isso que muitas das pessoas que me querem nunca chegarão a falar comigo sozinhas. Não lhes darei essa oportunidade. Não gosto ter que aturar todas aquelas conversas de circunstância das pessoas que não sabem apreciar as conversas silenciosas , não gosto de falar sobre o tempo com os estores fechados, nem gosto de pensar para conseguir falar. Falar é-me algo inato. Vivo para falar, para me organizar através da fala, para me perceber e perceber o meu mundo. Um mundo mudado.

            Às vezes, eu simplesmente olho em volta deste nosso mundo coberto de graffiti’s , repleto de adolescentes com os seus sentimentos adolescentes, dos velhos caquécticos e pedantes, dos empregados das firmas multinacionais, de tudo e tudo e simplesmente penso que posso desaparecer neste planeta sem inocência. Seria fácil, mesmo com o fardo que é a multidão. Apenas vestia uma t-shirt e cortava o cabelo. Punha umas calças de ganga e ténis, e pronto. Saia de casa para me misturar no tráfego humano. Viveria eterna e anonimamente, sempre caminhando, perdido no meio da mediocridade. As pessoas. O ser humano. Um projecto falhado e autodestrutivo . Um ser sem voz que caminha para uma cova mais próxima do que pensa. Porque ninguém, mas ninguém te ouve, numa multidão, falando todos simultaneamente, pronunciando as mesmas sílabas simetricamente, com os seus auscultadores de telemóveis perfeitos. Porque é isso que se é, quando se caminha com todos: Mais um deles. Mais um mentecapto que se acha normal, mais um que se sente como as pessoas normais se sentem. Serás apenas mais um que chega a casa às sete e meia, mais um que vê as mesmas novelas, mais um que critica as mesmas coisas. Tornas-te nos glóbulos vermelhos provenientes de uma medula óssea cancerígena, o sangue da Sociedade, fluindo abruptamente em veias destruídas e carcomidas pelo colesterol e anos e anos de fast-food . E acabas por te tornar nisso: Um ser sem nome e sem voz, uma carcaça ambulante em decomposição lenta. É por isto  que eu não gosto de andar de metro.

            E o que é mais estúpido é que as pessoas avaliam as outras pessoas pelo o que deviam vestir e não pelo o que se lhes adequa devido a esta “comunidade”, percebem? Por exemplo, um uniforme de polícia: um polícia usa um uniforme universal, nunca um feito à sua medida. Nunca de acordo com os seus gostos. Já vai a lengalenga que moda, para um homem de negócios, é a cor da gravata. Agora, tirem o uniforme a um polícia e ele deixaria de ser polícia? Não, continuaria a ter os mesmos conhecimentos da lei e a mesma estúpida arrogância de quem sabe estar acima dela, mas sem o uniforme, ninguém mas mesmo ninguém respeita um polícia. Porque o uniforme insere o polícia como parte da comunidade policial. Sem o uniforme, o polícia é apenas mais um Zé-Ninguém, e como tal, não tem a capacidade de exercer a sua função. Sem o uniforme, é ostracizado por quem é suposto defender.

            Agora imaginem, imaginem apenas, que eu me vestia com uma saia cor-de-rosa e um chapéu de coco verde-ranho e saísse para o meio da estação de metro do Rossio. Seria morto. Primeiro seria gozado, depois insultado e censurado e por fim resultaria de certeza numa agressão contra mim por parte de um qualquer primata com polegares oponíveis. Apredejariam-me até à 24 de Julho, mesmo eu não tendo a menor ideia de onde fica. Cruxificariam-me . Porquê? Porque estaria a insultar a sua sociedade, subconscientemente, ao usar uma saia, uma vestimenta fora de comum num homem. Seria contra natura, um ataque aos valores e tradições que tanto prezam! Seria uma afronta ao pudor instituído! E como todos sabem, os que vão contra o rumo da maré são empurrados e naufragados. Postos de parte.  

            E é isso que me irrita nestes idiotas… São demasiados estúpidos, todos eles, das meninas de treze anitos que devoram qualquer boys band que esteja na moda, desd’os universitários que s’intitulam “alternativos” até aos velhos decrépitos que apregoam a tradição, enquanto que na sua juventude, fizeram de certeza o mesmo! Não vos põe furioso saber que tantas pessoas e tantas almas odeiam e querem fazer sofrer com todo o seu sádico desejo todos os que vestem o que se lhes adequa aos gostos e não o que era suposto usarem? A mim enche-me de um nojo que me apetece fazer como o Alan Moore , e dar de frosques . Lá ia eu, para uma cabanazita algures nos campos do Alentejo ou do Alasca.

            Desculpem-me se eu estiver a ser demasiado... pessimista e negativo e tétrico. Mas é assim mesmo. Não suporto a ideia de alguém ter que morrer no anonimato, apenas para ser aceite pelos seus iguais. Qual é o motivo que leva as pessoas a calarem-se e a vestirem-se normalmente? Qual é o motivo que as leva a nunca tomarem aquilo que querem, mas o que os outros querem para elas? O motivo das marcas e All-Star’s ? O motivo que leva as pessoas a ridicularizarem quem não fala como elas ou fornica o sexo que elas fornicam? (Para não usar uma escolha mais vulgar de palavras).

            Há quem se queixe que a Sociedade Moderna, a Máquina que gere toda a enorme massa de adubo a que chamamos Humanidade, perdeu a sua inocência. Devido ao sexo na televisão. Devido à violência nos jogos. Devido às drogas na rua. Devido ao hip hop e rock and roll . Devido àquele e ao outro, a este e ao acolá, a ninguém e a todos. Eu concordo. A Sociedade já não é inocente. Mas não devido à televisão e aos jogos e às drogas. É devido à informação. O Mundo tornou-se subitamente, no século XXI, um paraíso , um enorme continente informático. Por todo o globo, as tradições quebraram-se, por todo o lado as portas da comunicação mundial abriram-se e todos quiseram fazer o mesmo: entrar com na moda. Andar na mesma onda. Falar a mesma língua , ver os mesmos programas, arranjar os mesmos carros, comer a mesma comida feita de plástico reciclado e cartão velho. Por ironia extrema, as portas da comunicação fizeram com que todas as vozes inteligentes se calassem e uma ditasse: a voz burra e ignorante da multidão. A Sociedade perdeu a sua inocência quando deixámos de pensar por nós mesmos. Quando a primeira rapariga gritou ao ver os Beatles, nunca mais houve um silêncio nesta face inóspita da Terra. E sabem o que aconteceu aos Beatles? Pararam de actuar, porque não se conseguiam ouvir a si e à sua música no meio dos gritos histéricos, a verdadeira bomba atómica desta geração. Foi nesse momento que se perdeu toda a inocência, todo o potencial humano que tanto se vê no mundo.           

Detesto toda esta ideia de conversão. A religião foi a primeira nódoa na inocência do mundo. Para mim, tanto um satanista convicto quanto um ferrenho cristão são ambos culpados do mesmo pecado: do fanatismo, a partir do qual começam a impor as suas visões de vida às outras pessoas. Os terroristas fazem-no explodindo aviões, os cristãos através do tele-evangelismo . Tentando pregar a Iluminação, quando nem ouvem o outro lado. Calando todas as vozes, em função da sua.

            Claro que falo como se fosse eu o Iluminado. Falo, pregando a minha visão das coisas, a minha visão de que toda a religião e toda a perversão da inocência é necessariamente humana, sendo uma cristalização das superstições de uma determinada sociedade “primitiva”, devido à falta de avanço tecnológico. O Sol desaparece à noite, porque ele é na verdade uma grande carroça governada por um homem do céu… Existe um gigante vouyer lá em cima e quando uma pessoa vence um cancro, é “graças a ele”. Não devido aos médicos reais, mas sim devido a esta identidade sobrenatural que nunca ninguém viu. Apenas vem escrita num livro muito, muito, mas mesmo muito antigo (a antiguidade é obviamente sinal de veracidade. Daí nunca devermos desrespeitar os nossos pais e muito menos os avós.): A Bíblia. A Torah . O Alcorão. Como quer que lhe chamem, eu chamo-lhe o maior jogo de telefone da História. A maior voz da Multidão. Os discípulos de Jesus Cristo são ovelhas, carcaças mudas e cegas que são conduzidas pelo pastor ao matadouro. Claro que falo como se fosse eu o Iluminado. Como se fosse eu o “não-conformista”… 

            Mas e esses atrasos de vida que se gostam de apelidar de “não-conformistas”? Os que se revoltam contra a máquina apenas para seguirem modas e rodas, não se apercebendo que a sua pequena rebelião faz parte das engrenagens da mesma engenharia contra a qual combatem? Estes abortos, estes incapacitados que não são capazes de perceber que tudo, tudo o que fazem, toda a pequena acção, desde comprar aquela pêra meio tocada para comer ao pequeno-almoço vegetariano (são sempre vegetarianos) até à compra dos comprimidos para dormir com os quais vão fingir uma pequena e desesperadamente patética tentativa de suicido, tudo isso é uma consequência da forma como foram educados. Toda a sua pequena rebelião, a maneira de organização e os seus ideais, isso tudo contra a Sociedade, tem fundamento na Máquina em si.

            Não-conformistas… Idiotas. Uma pessoa não consegue ir contra a sua sociedade, nasceu dentro dela e o seu cérebro encontra-se formatado pelos seus regulamentos e padrões, que até o seu discurso, a sua organização de ideias baseada em linguagem é tudo com base nesta nossa Mãe odiada (Mas também, quem aqui nunca se zangou com a sua mãe?). Para ir contra ela, seria necessária a criação de toda uma outra forma de discurso por parte de quem se revoltasse, toda uma outra forma de expressão que fosse contrária àquilo que a Sociedade defende. Infelizmente, esta nova forma de discurso que fosse criada, teria, inatamente, o cunho da nossa sociedade, pois, apesar de argumentar contra ela, é um produto desta mesma, no sentido em que foi criada por um individuo formatado (inconscientemente, desde a nascença) pela Máquina. Esses que gritam por revolta comunista, abafando os apelos da mensagem de liberdade solitária, os suspiros do individuo, o prisioneiro da Multidão.

            A revolta é um produto tão formalmente aceite como qualquer outro produto desta enorme cristalização a que chamamos vida humana. Simplesmente nem os não-conformistas nem os conformistas se apercebem disto. E eu? Eu sou filho do meu pai. Fruto do seu ventre. Sou filho da minha Sociedade mas confesso os meus pecados. Tento não ser não-conformista tanto quanto tento não ser conformista. Talvez eu seja, daqui, o pior de todos, sendo o indeciso e o Não-Definido . Eu, que não ando de mão dada com as modas. Eu, que prego contra pregadores pregados a cruzes. Eu, que declarei não-conversão enquanto vos tento converter à minha razão. Sou realmente filho da minha Sociedade e engrenagem da minha Máquina. É esta verdadeiramente a nossa divindade; não Yaheew, Deus, ou Alá, mas sim fast-food , pornografia e um idoso sem abrigo a morrer a cada esquina. Não adoram fazer parte da nossa grande raça humana?


                  David João Filipe
música: Revolution - The Beatles
reflexo de turma 12º 12 às 23:19

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