Terça-feira, 10 de Julho de 2007

Comum

 

            Não vale a pena contar a minha história. Ela é igual a tantas outras. É sobre um rapaz que um dia, um certo destinado dia, s’apaixonou e nunca mais viveu sossegado. A história de um rapaz que nunca quis mal a ninguém, mas acabou por magoar a todos os que lhe eram queridos. Uma história de erros e enganos e de alguém que acabou por não perceber o milagre da vida. Como tantas outras histórias.

            Poiso a toalha e a tesoura no lavatório e olho-me para o espelho. Às vezes, certas vezes, eu vejo um brilhozinho nos meus olhos, uma aparição fugida, como vejo muitas vezes em tantos outros. Será a alma? Eu já não me acho capaz de conter uma alma. Estou tão vazio de tudo e tão cheio de nada. Não. Não é a minha alma. Coloco a tesoura entre as minhas mãos. Ela reluz como os meus olhos. Até esta tesoura tem mais alma que eu. Agarro uns fios do meu cabelo e começo a cortá-lo até ter um penteado curto e desalinhado. Olho de novo para a tesoura que me devolve o olhar cortante numa frieza calma. A tesoura não tem alma, mas contudo sabe o seu triste propósito.

            Deixo cair o meu corpo pesarosamente na água. Sabe bem senti-la depois, agressivamente, tentar repor o lugar que lhe tiraram mas de nada serve. Ela é como eu.

            A minha história é sobre um rapaz que tentou controlar tudo e tentou nunca ser feliz pois a felicidade levam a desilusões e desenganos. Mas um dia, um certo dia, fui feliz. E então nunca mais tive sossego. E é verdade: eu nunca quis magoar ninguém. Só queria passar ao lado. Não me envolver. Não causar nada. Simplesmente deixar os outros viverem sem os incomodar para não me incomodarem. Até que me envolvi. Envolvi-me porque, fui mais fraco que o costume, e por um momento, fui tentado a ser feliz, a ser alguém. E fui feliz, fui alguém. Durante um dia. E vejam aonde isso me conduziu. Dia após dia, são páginas electrónicas recheadas de pornografia que vaza a alma e me deixam sujo e obsceno. Dia após dia é a mesma sensação de pânico. Dia após dia é a consciência de que eu não tenho futuro. Pois, se há um que encontra e é feliz, há outros mil como eu que nada terão e são ordinários e comuns eternamente. Pois se há um que encontra sentido, há outros mil como eu que apenas vêem Morte nas páginas da Vida. Deixem-me morrer, que eu já morri. Já vi tudo o que tinha para ver e o meu futuro abre-se perante mim como uma cova na terra pagã.

            Lá ao fundo oiço uma voz que chama o meu nome. Claro que eu sei que não é para mim; chamam o gato, a quem lhe deram o meu infeliz nome, e ele vem, contente e sem quaisquer perturbações. “Invejo a sorte tua, que nem sorte se chama”. Tu, que nada sabes sobre controlo nem sobre a vida. Tu, que nunca tentaste nada. Sempre foste. Invejo-te, tu, que nem homem és mas tens ao menos quem te chame. Banho-me e lavo o meu corpo das impurezas que me cobrem através de um óleo. Sinto a sujidade a sair de mim. Por um momento, sou puro. A água que cobre o meu corpo reflecte um líquido luar prateado. Aos poucos, esse luar toma uma tonalidade rosa para, em seguida, s’erguer num vermelho sangue de chamas apagadas.

Olho para tudo o que já fui nem nunca fui: Havia tanto, tanto…E agora sou nada. Sou apenas mais um... Quem me dera ser especial... Num olho brincalhão ali… Um amigo acolá… Penso como é bom repousar a cabeça no peito de uma mulher… Como é bom rir… Como é bom o vosso carinho… Como seria bom se eu não…


David João

música: Atmosphere - Joy Division
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reflexo de turma 12º 12 às 22:46

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7 comentários:
De Prof LP a 11 de Julho de 2007 às 08:41
Obrigada!
De Terry C. a 11 de Julho de 2007 às 21:14
... xD
que dizer?
agradeço...?
acho que sim
este texto diz mt....eu acho!
De daniela freitas a 11 de Julho de 2007 às 22:04
eh lá! não tenho palavras... a sério! este texto é tão... verdadeiro... tão envolvente! sabes quando tu o leste na aula não consegui deixar de olhar para ti nem consegui deixar de te ouvir porque foste tão sincero e conseguiste despertar a minha atenção :) gostei muito deste texto e acho que deves continuar a escrever pois és uma pessoa muito talentosa e tenho a certeza de que serás um óptimo escritor.Quando li pela primeira vez um texto teu fiquei impressionada pois as tuas palavras tocaram-me e agora, tal como todos os nossos colegas, também tu evoluíste e enriqueceste o teu vocabulário. enfim... acho que já sabes que eu gosto muito dos teus textos e vou voltar a repetir o que digo a todas as pessoas: não desperdices o teu talento pois é isso que te torna especial e único, entre outras coisas.
bjs :)
De turma 12º 12 a 11 de Julho de 2007 às 23:40
Mais vale viver desassossegado, do que apagarmos a nossa existência. Não somos fracos por nos deixarmos envolver, somos antes cobardes por não faze-lo. E se um dia tiveste coragem de te envolver, então deixaste de ser comum e como diz o nick da Raquel: " Hapiness is a voyage, not a destination"...
Temos de dar um passo de cada vez e encontrar a felicidade em cada um deles, mesmo que por escassos momentos... e encontrar coisas novas no mundo a cada segundo que passa como fazia, ou melhor, como faz Alberto Caeiro( todos temos de ter um bocadinho de Caeiro dentro de nos!)
Ah já agora eu vou estar sempre la no fundo a chamar por ti e eu vou te incomodar o resto da vida porque também já me envolvi contigo e agora não consigo viver sossegada!


em relação ao texto ta excelente e com a qualidade a que já nos acostumaste beijo adoro você
De silvia a 14 de Julho de 2007 às 20:52
iiihhh o Benny a falar dele próprio de um modo tao intimista...sentes t bem?lol Benny toda a gente sabe que não tens jeito para Ricardo Reis, por isso esquece, es mt mais Alvaro Campos e ninguem se importa...lol Ah, as pessoas excentricas nô são mt comuns mas pronto. E sim tou te a chamar excentrico!!!! Tens de escrever mais textos deste género...ta bacano!
De asasparavoar a 5 de Agosto de 2007 às 16:47
João: Queria dar-te mesmo muuuuuiiiiiitooooosss Parabéns por este magnífico texto. Podes ter a certeza que estas palavras me tocaram e que me emocionei, sim senhor! A primeira vez que ouvi o teu texto, quando a minha mãe mo leu, gostei tanto, mas tanto tanto...que sempre que posso, venho aqui dar uma espreitadela ao vosso blog e venho ler e reler e voltar a ler o teu texto...

Muitos beijinhos
De turma 12º 12 a 2 de Setembro de 2007 às 13:39
Uau, muito obrigado. O teu comentário, juntamente com o da Tânia de certeza que forem os melhores. Desculpa ainda não ter respondido, mas só cheguei agora de férias. Mas respondo agora, muito obrigada!

João

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