Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Heroína

Uma vez por mês... 

  Uma vez por semana...

   Uma vez por dia...

   Todos os dias, a toda a hora, agora, na casa dos teus pais enquanto não vêem, vai para a outra sala, esquece os teus amigos, eles só te trazem problemas, só te arranjam o frio sólido e deixa-te entrar na neblina, pára para deixar entrar o vapor e sente as tuas narinas, sente o teu corpo por uma última vez. Sozinho na tua casa, a toda hora, é só o que fazes. Quando foi o último, não importa, quando será o próximo é tudo em que pensas. Quando a tomas, és apenas tu o mundo. Não tens vergonha nem dignidade porque essa parte da humanidade, já a removeste de ti à muito tempo. A única coisa humana em ti são os teus sentidos e a voz da esquina. E se a tentam remover por metadona, tu irás pontapear, irás morder, irás arrastar-te até teres tudo o que queres e que é só uma coisa: Heroína.

 

   Quando foi a última vez que tive um chuto decente? Já nem me lembro, foi das primeiras. A partir de um certo momento que ocorre demasiado cedo, começamos a ansiar nem tanto pelo sentimento, mas pelo acto, pela libertação, pelo fim e não pelos meios. O nosso corpo começa a expandir e a nossa mente a atrofiar, ficamos cada vez mais alertas enquanto entramos numa cova lenta, sufocante e claustrofóbica. E ocasionalmente orgásmica. É aí que sabemos que estamos dentro. E sabemos que só por um grande milagre de Deus, é que vamos sair. À medida que o nosso corpo começa a criar tolerância e ela começa a entrar cada vez mais. Começamos a pensar no nosso corpo como um meio.

 

   Saio de casa e o nevoeiro tapa-nos os pés e a mente.  Começo a atravessar a rua escondido no meu cachecol. Sinto uma ligeira tontura e sei que o enjoo está para vir. O enjoo e a hipersensibilidade ao toque, à luz, a tudo menos a ela. Preciso de ajuda, preciso de alguém, qualquer pessoa. Eu sei o que vai a acontecer - Sinto o meu peito a apertar - Ninguém em volta - É desta, é desta, eu não consigo respirar. Meu Deus, eu não consigo respirar! Eu vou morrer. Eu vou morrer... Eu vou morrer... eu vou morrer... Mas não assim. Não agora. Só mais um, só preciso de... mais um.. Só preciso de encontrar... Preciso do meu homem.

 

 

   Encostado a uma parede, esguio e pálido, com um cabelo oleoso e uma cara cadavérica, Mefisto, trocamos almas, trocamos seres, trocamos histórias e fazemos negócio. Fausto, com menos vinte euros e um bolso atomicamente mais pesado. Vou para outra esquina, só para não lembrar ao pobre diabo a sua figura e também para não o fazer inflacionar o preço, se soubesse o quão desesperado estou. É a toda a hora, não me importa quem vê, não me importa onde estou, eu só preciso de mais um até ao próximo. Não tem nada a haver com inteligência ou com maldade, mas apenas com força de vontade. E quão realmente pequeno é o nosso desejo de viver.

 

   Eu percebo o processo. Mais rapidamente adquirida por injecção e metabolizando no fígado, ela é imediatamente convertida em morfina pelas enzimas celulares do meu cérebro.

 

   Queres falar comigo? Espera então, que estou quase lá. É só mais um pouco. Mas que me importa que queiras falar comigo, eu já não te quero! Desapareçam! Vocês não são nada, são espíritos, fantasmas talvez! Não me estraguem mais do que já sou e, por amor de Deus (Deus?), não me estraguem isto também! É isto! SIM! Isto é... isto é... Perfeito... ou quase perfeito. É Divino...

 

 

  E está uma rapariga a um canto. Tão bonita. Tão querida.  Vestida com os mais preciosos dos tecidos, mais colorida que um arco-íris no meio de uma cidade cinzenta e corrupta, aonde um homem pode comprar o seu inferno e o seu paraíso na mesma esquina. Tem os lábios vermelhos e os cabelos em caracóis, e a sua face é a mais doce visão do mundo, uma rapariga, um anjo, um milagre. E quero que tu me ajudes mas tu não me podes ajudar, nem com tudo o que tens, nem com todo o teu amor que te negaram e a inocência que te tiraram. Nem eu te posso ajudar, nem com tudo o que me neguei e me removi. Já nem homem sou, sou meio homem, incapaz de amar e nem sequer fazer amor... Por vinte euros, vendemos a nossa vida. Quando as minhas veias se romperem e pegarem fogo, as minhas artérias se tornarem em esgotos, o meu cérebro numa necrópole, a minha vida num exemplo e quem eu sou no esquecimento... 

 

   "Heroin, be the death of me
Heroin, its my wife and its my life
Because a mainer to my vein
Leads to a center in my head
And then Im better off and dead"

 

          Lou Reed

 

                             Tetricamente consanguíneo... Filipe.

  

reflexo de turma 12º 12 às 13:23

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