Domingo, 17 de Agosto de 2008

Pollock e Daisy

20h 47 min.

1960

Sidney, Austrália.

 

            “Querida, despacha-te, senão chegaremos tarde!”, gritou A. Pollock para a janela do resto chão do pequeno apartamento alugado, enquanto tentava desesperadamente arranjar um táxi naquele vendaval.

            “Oh, querido, só estou à procura da tua mala, aonde é que a meteste, por amor de Deus?” Foi a resposta vinda do rectângulo luminoso. A voz era bonita o suficiente para assegurar que a sua senhora seria mais ainda e esta senhora chama-se Daisy L. “Depressa, aonde é que a enfiaste?”

            Pollock lembrava-se de ter preparado a mala. Pollock lembrava-se de ter fechado a mala. Pollock não se lembrava aonde a pusera. Remexendo nos cantos da sua mente, Pollock tentava encontrar a maldita bagagem, mas por mais que tentasse o único pensamento que lhe invadia a mente era o enorme pedaço de metal que se enfiava pela sua perna adentro. “Ah!” gritou ele, pelo menos até reparar que a aguçada aresta de metal era nada mais nada menos que a aresta da sua própria mala. Aí gritou, “Ah, querida, aqui fora! Está aqui fora, despacha-te!”

            Quando Daisy L. saiu do apartamento, ninguém diria que ia de viagem. Ao ponto que Pollock lembrava qualquer homem europeu com o seu charme de meia idade, bem parecido apesar das suas têmporas prateadas, Daisy lembrava uma diva de cinema. Desde o seu andar gracioso e elegante, digno de rainha, ao lenço vermelho enrolado na cabeça para a proteger da chuva, ao vestido justo e no entanto clássico que lhe decorava o corpo.

            Enquanto eles entram no táxi que acabam de arranjar, exponhamos os factos: A. Pollock e Daisy L. já são casados há um ano. Após um breve romance de seis meses, o casal antiquado soube que não necessário mais esperar e casaram-se numa cerimónia pequena, no seu próprio quintal, atendida apenas pelo padre, por eles e pelo seu cão. Vivendo no seu quarteirão suburbano, eles eram mais que felizes mas, no décimo primeiro mês da sua vida matrimonial, acharam-se no início de uma vida rotineira. Para contrariar isso e para celebrar o seu aniversário, decidiram partir finalmente na sua lua-de-mel de modo a quebrar o hábito e consumar a sua união, pois, desde a véspera do casamento e apesar da sua extrema felicidade conjugal, nunca se haviam amado … Nunca, até ontem à noite. Por isso não se surpreendam do ar de reguila do homem e no brilho romântico nos olhos da mulher.

            Chegam ao aeroporto com um quarto de hora de atraso mas miraculosamente são capazes de entrar nos seus respectivos aviões. Por um motivo que lhes havia sido extensamente explicado e meticulosamente exagerado e o qual não puderam compreender, eles haviam sido separados e teriam que tomar dois aviões que partiriam exactamente à mesma hora do mesmo aeroporto e chegariam ao mesmo destino após o seu trajecto comum.

            “Amo-te”, Pronunciaram num sussurro audível para ninguém senão eles enquanto entravam nos portões vizinhos. “Vemo-nos do outro lado.”

 

            “Por aqui senhora.” Anunciou o jovem militar à sua frente, conduzindo Daisy através dos lugares assentos do pássaro metálico. Colocou-a no primeiro lugar do avião, fila A assento 1, e ao seu lado iria ele, loiro, alto e com um ar ainda ligeiramente infantil de tão pálido que era. Levava a seu colo um estranho dispositivo branco pérola, saído de uma revista de aventuras de criança certamente.

           

            “Por aqui senhor.” Anunciou a rapariga com um maravilhoso sorriso a Pollock e tratou de o orientar por entre o avião. “Aqui, sente-se aqui se faz favor. Sabe uma coisa? Senta-se ao meu lado hoje. Não há espaço lá à frente, estão os homens do exército todos metidos no cockpit e preencheram todos os lugares das hospedeiras. Infelizmente ou felizmente, eu sou a única que tem de se mudar e olhe que agora já nem tenho tanta pena, afinal, não é todos os dias que me sento ao pé de um senhor tão esbelto em oposição à Muriel, coitada, que pesa 250 quilos.” Pollock deu uma farta gargalhada e apenas respondeu à rapariga excessivamente faladora “Obrigado mas a honra será minha.”

 

Esperados os costumais dez minutos, o avião preparava-se para descolar, dando voltas ao longo da pista. E Daisy sentia-se solitária. Virando-se para o soldado a seu lado perguntou melancolicamente: “E então, afinal porque tenho eu de ir separada do meu marido neste voo?” O jovem esperou uns momentos, e virando a cabeça respondeu apenas que não lhe poderia comunicar o porquê, era confidencial, assuntos altamente secretos do Exercito.          “Pois bem, o Exercito neste momento está-me a custar os últimos momentos de lua-de-mel com o meu caro marido, espero bem que seja algo de importante.” Replicou ela, amuando para o lado e começando a olhar sonhadoramente pela janela do avião. Este começava a descolar. E Daisy apenas se podia abstrair no seu reflexo melancólico espalhado pelo céu estrelado.

Após o avião estar finalmente no ar, o jovem finalmente aquiesceu e desapertou o seu cinto de segurança e o dela. “Que se passa?”, perguntou-lhe ela. “Desculpe, não lhe quis causar incómodo, mas compreende que eu sou apenas um funcionário. Não coube a decisão de a separar do seu marido à minha pessoa, mas ao menos eu posso dar-lhe uma explicação. Este é o motivo que a separa do seu marido.”, Disse-lhe o militar levantando ligeiramente do colo o artifício metálico. Ela perguntou-lhe do que se tratava e ele respondeu que, apesar de não poder entrar em muitos pormenores por razões óbvias, explicou-lhe que era um aparelho da mais alta e recente tecnologia e faria hoje o seu primeiro voo comercial. Era necessário testar o seu desempenho através daquela rota pacífica, após ter sido testado nos aviões do Exercito e das Forças Aéreas. O porquê em concreto do que era, para que servia e o motivo que levavam a experimentá-lo num avião com civis, ele desconhecia. Depois desta explicação, e desconhecendo a causa, Daisy sentiu-se muito mais animada e segura com o seu voo e seguiu a breve e animada conversa com um sono profundo.

 

Pollock não recebeu uma explicação tão científica do que se passava mas a assistente de bordo lá lhe transmitiu tudo o que sabia.

“ E é tudo o que eu sei.” Disse ela após ter revelado uns outros tantos segredos de estado, nenhum deles relevante com o assunto em questão. “É por isso que os militares estão lá à frente, nós cá atrás, e a sua mulher e um outro militar no outro avião. Agora que caixa é aquela que levam com eles, eu já não sei nem quero saber. Eu tive um primo cujo o seu pai, ou seja, meu tio, mas na verdade não era meu tio verdadeiro, é apenas maneira de falar como a que se usa lá no sul, sabe, bem ele disse que o pai dele, o meu tio, havia trabalhado com o governo durante a guerra e que os nossos gajos e os europeus tinham todo o tipo de geringonças e aparelhómetros e coisas desse género e entre as quais estavam bombas atómicas e é por isso que eu não quero saber. Mas sabe, eu também tive uma cunhada da minha prima em terceira grau, que por acaso também é bisneta da Muriel, e ela disse…” Continuou a rapariga, mas Pollock já não a ouvia. Apenas massajou a testa e tentou aliviar a massiva dor de cabeça que esta moça lhe começava a provocar enquanto ia a pensar na sua esposa no outro avião. 

 

O voo de ambos foi aventureiro, com enorme turbulência e tempestades recorrentes. Daisy comeu ao jantar peixe grelhado com salada mediterrânica, Pollock apenas bebeu um xerez que lhe fora oferecido por um texano no banco atrás do seu. Nenhum conseguiu dormir muito após a meia-noite. Ambos os aviões aterraram precipitadamente, pregando um grande susto aos seus ocupantes. A noite estava tempestuosa, como todas as noites do género costumam estar. E só quando cada um chegou à zona de desembarque é que se aperceberam que algo estava mal.

Os aviões de Pollock e Daisy, ambos de Sidney com destino a Smallville, uma pacata comunidade rural recentemente transformada num paraíso suburbano idílico, haviam aterrado. Todos os seus passageiros haviam abandonado os seus lugares e os seus aviões. Todos eles haviam levantado as suas bagagens. E os aviões voltaram a levantar com novos pilotos, nova carga e novos passageiros. E embora familiares se tenham reencontrado com familiares, amantes com amantes e desconhecidos com conhecidos, Daisy e Pollock não se encontravam um ao outro. Esperaram tanto, que finalmente, cada um decidiu ir para casa.

 

Pollock chegou a casa eram três e meia da manhã. Havia esperado uma hora e meia pela sua mulher e ela no entanto, tinha-se recusado a aparecer. Havia falado com todo o pessoal do aeroporto que conseguira e cada um lhe tinha dito que haviam saído todos os passageiros do seu avião e que não se preocupasse, a sua esposa provavelmente apenas teria tido demasiado sono e cansaço para andar à sua procura e fora para casa esperá-lo. Pouco convencido e relutantemente, ele testou essa teoria e chegara a casa para descobrir que Daisy também não lá estava.

Decidiu tomar um duche quente para tentar tirar a sensação de gabardina fria da sua pele e finalmente, após mais uma hora de vigília, resolveu que era altura de procurar ajuda. Foi a casa de um tal H. Redwood, amigo íntimo de ambos, em busca do seu auxílio, este acalmou-o e convenceu-o a passar lá a noite, assegurando-lhe que ela apareceria na manhã seguinte.

 

Daisy chegou a casa para a encontrar vazia. No entanto, já lá estava uma das malas de Pollock. Reconfortada ela percorreu a casa e chamou o seu nome mas, apesar de compreender que ele lá tinha estado, ela lutava por compreender que ele já não lá se encontrava. Havia sinais que ele tinha tomado banho, mas ela não entendia o que o levara a ir-se embora depois disso. Resolveu deitar-se, podia ser que ele estivesse de tal modo preocupado com ela, que havia ido ao aeroporto buscá-la e como tal, já saberia de certeza que ela seguira rumo a casa. Eram exactamente quatro e dez da manhã. Conformou-se a ir para a cama e aguardá-lo no dia seguinte. Talvez se não estivesse tão preocupada com Pollock teria dormido o suficiente para acordar com o seu toque de telefone às nove e meia da manhã, a questionar-se aonde ela estaria.

 

Daisy bateu apressadamente à porta, com os seus óculos de sol a taparem-lhe os olhos vermelhos de cansaço e arrelia.

“Daisy! aonde é que estiveste? Estivemos preocupadíssimos contigo!” Repreendeu-lhe Redwood, com o seu cabelo apropriadamente vermelho fustigando em todas as direcções, acrescentado ainda mais ao ridículo da sua cara quadrada ampliada pelos seus óculos redondos enormes e o seu nariz digno de uma epopeia de Homero.

“Estive em casa, aonde haveria de estar? Onde está o Pollock?” Respondeu-lhe ela num pranto. “Foi para vossa casa. Há coisa de um quarto de hora. Não o apanhaste?”. Ela parecia notoriamente abalada. Sentou-se numa das poltronas no apartamento de solteiro. “Não… Não. Como? Um quarto de hora? Eu deveria tê-lo encontrado no caminho.” “Ele foi de táxi”, esclareceu-lhe o ruivo. “Queres algo para beber?” Ela deu-lhe um olhar. “São apenas dez da manhã.”

 

Para Pollock, foi um alívio, ao retornar ao apartamento, descobrir as roupas da mulher espalhadas pela casa, a loiça lavada no lavatório, o seu perfume nos lençóis da cama, a casa-de-banho ainda ligeiramente embaciada pelo seu duche. Rapidamente abriu as malas e analisou o dia adiante. Por muito que quisesse esperar por ela, pois sabia que esta estaria certamente prestes a voltar a casa, tinha que ir trabalhar, já metendo todos os seus dias de doença para poder ir nesta lua-de-mel excêntrica.

Fez a barba, trocou de roupa e preparou-se o mais lentamente possível na sua preparação para o trabalho, na esperança de que ela chegasse entretanto. Mas ela não chegou e assim, ele decidiu apenas escrever-lhe um bilhete.

 

Daisy entrou no seu lar já era perto do meio-dia. Passara algum tempo com Redwood e com a sua mais recente futura divorciada quando finalmente aprontou-se em ir para casa. Mas mesmo antes de entrar já sabia a terrível verdade, nem ela sabia como. Pollock não estava em casa.  Encontrou o bilhete que dizia “Passei a noite com o Redwood, não aguentava ficar aqui sozinho à tua espera. Ficamos muito preocupados. Folgo saber que dormiste em casa. Tive que ir para o trabalho, ainda a ver se te apanhava. Até logo. Amo-te.”

Daisy sentia-se incomodada. Esperou a tarde toda e quando se cansou de esperar achou que mais lhe valia dar um passeio enquanto ainda havia sol e Pollock não chegava. Saiu pela mesma porta que cinco minutos mais tarde deixaria Pollock entrar vindo do trabalho, mas este saiu logo de seguida em direcção à casa de Redwood ao encontrar a casa vazia.

Daisy ao chegar perdera a chave e não conseguiu entrar, sem o Pollock lá para lhe abrir a porta. Passou a noite com uns amigos. Tentou telefonar a Redwood e para Pollock mas não os apanhou. Estavam desencontrados.

 

E andaram assim, desencontrados pelo resto da sua vida. Os dias deram lugar a semanas, as semanas a meses e os meses aos anos e eles achavam-se sempre separados, apesar das suas tentativas. Após um mês e meio da sua lua-de-mel, Daisy descobriu que saíra desta grávida. Deu à luz sozinha. Pollock não fora capaz de encontrar o hospital. Educaram os filhos, gémeos, separadamente e estes nunca os viram aos dois na mesma sala ao mesmo tempo. Nunca os conheceram como casal.

Daisy e Pollock nunca mais se viram. Pollock morreu, atropelado por um carro. Daisy morreu de coração quebrado ao saber que o homem da sua vida, que há mais de quarenta e oito anos não via, havia morrido. E morreram ambos tão apaixonados um pelo outro quanto no dia em que se haviam separado há quase meio século atrás.

 

                               Bernard LeChien

música: Danny Elfman - Jack's Lament
reflexo de turma 12º 12 às 12:08

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