Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Feliz

 

            Uma manhã eu acordei e estava diferente. Não conseguia perceber bem. Ao princípio pensei que tinha gripe, sentia-me febril e ligeiramente eufórico, mas plenamente capaz físico e mentalmente. Decidi imediatamente consultar um médico.

            Após quinze minutos por cem euros sem fazer absolutamente nada, ele chegou a um diagnóstico: Eu estava feliz. Diga-me que não é verdade, disse eu, Diga-me por favor. Ele olhou-me gravemente nos olhos e informou-me que teria sorte se alguma vez conseguisse voltar a deprimir-me. Senão estivesse tão imensamente contente, era o que teria feito naquele momento. Nem quimioterapia, radiação, cirurgia, excisão, não seria possível dilacerar e magicar com o meu corpo a qualquer custo e modo? Ele aquiesceu e disse, Olhe, não existe muito que possamos fazer, mas tente ter pensamentos negativos, pode ser que ajude. Depois indicou-me a uma segunda opinião médica: a de um psicólogo.

            Fui para casa, terrivelmente feliz. À minha volta, aonde antes via miséria e fome e solidão, só conseguia ver casais apaixonados, cachorrinhos e conffettis cor-de-rosa ao redor. Estava no mais alto imaginável. A certa altura apanhei-me a cumprimentar bebés e a fazer caretas a idosos. Ou pode ter sido ao contrário, a felicidade era tanta que me custa lembrar.

            A minha primeira missão foi tentar quebrar a notícia aos meus entes queridos. Preparei com o máximo cuidado uma intervenção numa casa mortuária, de modo a suavizar o golpe, com crisântemos e miniaturas de caixões penduradas dos mais diversos sítios. Estava decido a ser o mais triste a anunciar o jubiloso infortúnio que me havia sido infligido. Eu sou feliz, disse-lhes, seguido de suspiros e soluços e a minha prima mais nova, a Elisabete de setenta e oito anos, desmaiou logo no local, para ser depois reanimada pela equipa de paramédicos no Amadora-Sintra.

            Já tenho felicidade constante e plena há quase cinco anos na minha vida, mas nunca nos habituamos bem à ideia da nossa fortuna. Ainda no outro dia, estava eu a cantarolar no meio da rua, quando me deparei com um antigo colega, vi logo na cara dele que sabia que eu tinha algo. Expliquei-lhe a situação e o meu sorriso e ele apenas conseguiu murmurar um, Lamento imenso, antes de se lavar em lágrimas. Estou mal, já se começa a notar no meu corpo e na minha face, estou cada vez mais saudável e esbelto e não existe nada que a Medicina Moderna possa fazer por mim. Mas mantenho-me positivo – isto é, negativo, de que irei conseguir vencer esta… coisa.

 

                                                           João

reflexo de turma 12º 12 às 07:54

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1 comentário:
De pirua a 30 de Julho de 2008 às 10:38
inexplicável mas bonito.
*.*

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