Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

L'Aventura da Rapariga Diamante e do Rapaz Mudo

                                               

                                          AS AVENTURAS

DA RAPARIGA DIAMANTE

        E DO RAPAZ MUDO

           

Era uma vez uma rapariga diamante. Ninguém gostava dela porque todas as suas faces reflectiam o mundo e todas as suas faces reflectiam todas as pessoas melhor do que eram. Era uma vez um rapaz mudo. Ninguém gostava dele porque o seu silêncio era ensurdecedor e dizia mais verdades num olhar do que um som. Um dia encontraram-se e decidiram fazer da sua vida uma aventura.

Vivem no seu mundo simples, preso dentro do mundo complexo de máquinas ambulantes e de roldanas esmagadoras. Acordam e levantam-se, com os seus pijamas vestidos, azul para ele, vermelho para ela, para o Sol da manhã, enquanto lá em cima se ouve o atarefado passo dos vizinhos, o cheiro a café e torradas e a súbita nostalgia de um tempo que nunca foi nosso. O pai grita com a mãe, a mãe grita com o filho, o filho grita com o cão, e o cão, último na cadeia de zaragatas, implode com stress e tem uma paragem cardíaca. Mas lá em baixo eles só apreciam o vão nascer do Sol. Sem palavras, sem excessos. No silêncio intimo mais frequente a estranhos que a amantes.

Oiçam, fazem amor! Há quem perca a noção infantil da meia-noite nas luzes modernas, mas eles não. Amam-se pela noite fora, o tempo esquece-se apenas para ser um presente eterno, as doze badaladas inatingíveis. Como tal, pela noite adentro, ele beija-a e ela sorri-lhe até adormecerem sossegados, aconchegados um ao outro, descansados o suficiente para, depois do acordar, voltarem ao mesmo. Não os incomodemos.

Mais tarde, já vestidos, ele no seu fato castanho e gravata frouxa, o desalinhado cabelo loiro mistura-se nas labaredas ruivas do dela, as chamas de uma qualquer metáfora insuficiente, vão passear por aonde ainda não passearam, admiram as montras e admiram-se um ao outro (observem os transeuntes, cada qual teimando o silêncio do jovem casal) e por fim vão passear para o parque onde um dia irão levar a sua criança.

Param para almoçar, ela fica tão bem no seu translúcido vestido branco, curto mas não tão curto que possa atacar o pudor das senhoras de mais idade, que digamos, já se sentem chocadas o suficiente com o perfil dos seus seios e ambos comem e bebem levemente. Acaba a refeição e conversam, ele fumando e ela bebendo o seu café. Ele sorri. Ela mostra-lhe a língua. Ai os jovens, o que se há-de fazer? Em breve saem e passeiam de bicicleta, mas olhem que visão tão estranha, se é que ele não é um anjo loiro sem asas, a andar de bicicleta num fato? E ela, coitada, não pode impedir Zéfiro contra a impotência aerodinâmica do seu traje.

Vivem sem luxos nem excessos, o dinheiro não lhes pesa na consciência porque não o têm, e trabalho? Evitam-no porque os separa, e eles estão sozinhos no mundo, mas são um mundo só eles os dois. Sem as faces dela, o rapaz mudo não tem onde se olhar e reflectir a verdade pelo mundo. Sem o olhar dele, a rapariga diamante não pode reflectir a beleza que transparece dele. Cada um faz o mundo ser melhor todos os dias, mas fazem-no juntos e no entanto, mal têm para pagar a renda. Mas enfim, há que se submeter á vida das luzes modernas e ele ensina o latim quando pode e ela ensina o piano quando o desejam. 

Chega o lusco-fusco e voltam ao seu vazio apartamento. Branco, espelhado e simples. Jantam simplesmente, sem velas nem quaisquer adereços românticos. Jantam sós e isso basta. Ela levanta-se e começa a tocar e ele começa a vestir uns dos vestidos dela e começa a sua ímpar dança rústica pela divisão. Entra a valsa e começam a cantar. Há riso e vinho e calor que chegue e sobra, escapando-se pela grande janela aberta, aquecendo o mundo. Chega a noite e deitam-se sem doze badaladas. Para eles ainda falta muito para as doze badaladas. Nunca irão chegar as doze badaladas.

             

                                 L'ombre de ton Chien
música: John Legend - P.D.A. We Just Don't Care
reflexo de turma 12º 12 às 07:44

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1 comentário:
De nº3 a 29 de Fevereiro de 2008 às 21:19
plano da ficção plano da história... que giro. uma situação na hora certa, uma leitura certa no momento certo. como na minha vida, aliás...
gosto.

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