Quarta-feira, 16 de Maio de 2007

Sonho Doente

  Entrei. Não queria entrar. Era horrivel de novo. De novo aquele espaço era horrivel. Fizeram-me sentar. Não estou doente, não estava doente, apenas dormia. Não me façam ficar.
  Estava aflito. Haviam indícios que me confirmavam a entrada. O sanitário estava ocupado, estava lá uma rapariga, com um chapéu, à espera não sei de quê e olhou-me inquisidora e cuidadosamente. Alertou-me para outra presença naquela casa-de-banho: a mãe dela. Saiu. Tive de correr para a cabina, explodindo, acudindo, a necessidade. Que horrores se sucederam, quais pavores me assolaram. Voava agora uma enorme criatura na minha direcção, saltando pelas cabinas. Como estava louca. Como me desespera. Beija-me. Adora-me. Era como a besta chavelhuda. Flamejei de nojo. A besta chafurdou-me em esterco, puro, dela. Nojo, que nojice...flamejava. Ela esfumou-se. E vejo tanto espaço enojado, tanta nojice num sítio calado. Fugi do nojo que vi. Corre, corre ele vem atrás de ti. Nojo que nojo está colado a ti.
  Cheguei. Está lá o que vou limpar, reflectido. O nojo, aquele nojo. Limpei.
Entrava então no barulho da minha cabeça, aquele barulho lá dentro, na cabeça cheia de barulho. Ai! Os ouvidos expulsavam a maior infecção que tenho. Tem de sair, doendo. Sai sim. Cremosa e em contraste de cor. A doença do amarelo. Do que vive o vermelho. Escorreu e saíu. Saíu, saindo... por completo.
  Suspirei, escrevendo. Fui ficando na sala escura. Sala de minha casa. Escura e fechada. Se me incandeia a luz que força a entrada! A rufar no espelho, a gritar no papel em que escrevo. Incandeia-me.
  Olhava. Fui encontrado. Encontraram-me. Não me obrigaram a ficar.

Gonçalo Julião                                                  24/04/07


sinto-me: seco
música: ghost opera- Kamelot
reflexo de turma 12º 12 às 17:14

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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007

Vício

   

  Hoje apetece-me embirrar contigo. Estou num daqueles dias em que me dá um imenso prazer fazer tudo ao contrário daquilo que me dizem, discordar da opinião e interesse gerais. É tão agradável ser advogada do diabo; como eu adoro esse papel, e tão bem que tu o sabes!

   Às vezes penso em como seria maravilhoso que, de vez em quando, fosses algo evanescente... mas não!! Tu insistes em entrar na minha vida quando queres e bem te apetece, sem dar uma satisfação que seja! Teimas em girandolar-te por aí, convicto de que quem tu queres estará a apreciar-te. E enerva-me a forma como tu o consegues; e se queres eu bato palmas: viva o palhaço! Irrita-me o modo como obténs tudo o que anseias com o simples acto de te pavoneares o mais que podes diante dos olhos de toda a gente; irrita-me saber que eu já partilhei contigo esse teu irresistível vale pecaminoso onde se desenrola o teu mais agradável sonho: o mar de volúpia onde as portas se fecham, as luzes se apagam e dás início à tua mais profunda vontade, sem fronteiras intimidativas.

   Assim és tu, o maldito vício que assoma à minha porta sorrateiramente. És a pessoa que menos merece as atenções que tens, contudo o meu vício de ti não passa... ao que parece o meu coração não te abandona e o meu corpo não te esquece, enquanto permaneces na tua intocável vaidade.

   Eu desejava ver-te à margem de tudo isso, sem alguém para te satisfazer, sem um suporte para te advogar ... mas continuo nesta linha que teima incessantemente em não distorcer, uma recta irritantemente perfeita afasta gradualmente o seu terminal.

    Tiveste tudo, nada deixei que te faltasse. Queres mais que isso? O teu enorme desplante evidencia-se na tua súplica do amor que não aproveitaste outrora. Da minha paixão, sobrou apenas a obsessão e vício que me provocas; não tenho mais nada para te dar. Esperas por sapatos de defunto! Mas hoje... apetece-me embirrar, apetece-me contrariar: e aqui estou, ao pé de ti.

 

 

 

Inês Rocha 

 

 

sinto-me: distante...
música: "Harvest", OPETH
reflexo de turma 12º 12 às 14:08

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2007

III - (O Poema da Solidão)

Sempre fui só.

Houve

uma vez

em que não fui só.

 

Julguei-me

erroneamente

acompanhado.

 

Para não perder

esse outro,

fui-me tornando ele.

 

Afinal, era ilusão.

Estava só, comigo.

Agora, estou só, sem mim.


 

David João

música: Sunburn - Muse
reflexo de turma 12º 12 às 16:09

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O Poema Do (Cão)

O Poema do (Cão)

”Os bons vi sempre passar
No Mundo grandes tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.”

Luís Vaz De Camões

Este Camões era tão mau malfeitor...
Mil graças, e graças mil ao Deus tão vil
Que alma tão boazinha e perspicaz, apagou!

Permitam-me que me introduza:

Cão, sou eu, o mentiroso, o cobarde e o cego ingrato.
Eu cão, que mordo na mão que me alimenta como quem morde com prazer.
Eu cão, disforme de rosto e grotesco de alma,
E ( mais que isto tudo )
Eu sou Cão, o que odeia tudo e todos e mais alguém ainda.

Porque sou eu assim? Perguntam vocês e fazem bem,
(Exercendo o vosso direito constitucional de liberdade de expressão)
Porque sou e ajo assim tão mal?
Aproximem-se que eu respondo...
Aproximem-se, sim! Aproximem-se!
Só mais um bocado, que eu não mordo:
Aproximem-se...
Cheguem-se que eu falo baixi-i-inho....

NÃO É NADA COM VOCÊS!

Ó donas de casa, ó vizinhas e as suas tias!
Quer tenham penduricalhos entre as pernas ou não! São coisas cuscas, vocês!
Liberdades, quais liberdades! Eu sou vil, tenho lá que vos ouvir e responder!
Ser mau é tão bom, tanto quanto ser bom deverá ser tão mau.
Sou vil, porco, desprezível e (insulto máximo)
Sou tão ou mais humano que a maior parte dos homens!
Vão vocês, seres de honra e de dignidade, vive-las e ás vossas vidinhas,
Que eu cá não tenho dignidade, não tenho honra e muito menos tenho vida!
E vivo a minha ausência de vida, com muito gosto!

Deixem-me, deixem-me! Se vos vir – mordo-vos!
Que fique eu azedo como o leite materno ( que nunca bebi ),
Que eu fique amargo como o café africano ( excremento líquido )
E que apodreça eu, Cão, como tanta carne que eu já comi!

Num Mundo em que eu, Cão, viva,
E que tanto mais eu tenha e terei mais que tantos outros
Que digamos, tão pouco têm, claro que eu sou vil! Claro como a noite!
Eu, que ando casmurro e amuado, sendo a minha visão sempre a destas patas minhas,
Eu, que, verdade seja dita, sou mais mentiroso que os filósofos e matemáticos,
Eu, que menosprezo, desprezo e ridicularizo tanto da ciência como do povo,
Eu, que ataco por trás e fujo pela frente como quem sabe que vai levar porrada,
Eu, que finjo não ser quem eu sou de tal maneira que nem sei se finjo aquilo que eu sou,
Eu, que nem vomitando e regurgitando e defecando exteriorizo toda a merda vulgar que há em mim me enjoo,
Sou eu, Cão, quem mais se ri e menos se importa com os outros e o Mundo!

Que Mundo é este, afinal? Se fosse mundo, eu cá não estaria!
Três vezes morra o Mundo! Morra! Morra! Morra!
Morra Cão, moribundo, e morra o Deus que o deixa viver!
Pois, se Cão é vil, mais vil ainda é o Deus que o consente... e com prazer!
música: The Sof Parade - The Doors
reflexo de turma 12º 12 às 15:58

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