Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Quando Eu Morrer (Revisão)

    Quando eu morrer,
            Seja de Velhice, Doença

Acidente ou Assassínio,

Dividam meu corpo em dois

E coloquem-me em cada margem do rio.

 

    Ao ver-me aqui, do lado de cá,

Sei perfeitamente mas incomoda-me,

Como incomodaria a uma criança,

Saber que não posso estar do lado de lá.

 

    Não posso, efectivamente, estar em dois sítios

Simultaneamente.

Não posso saborear o mesmo vento, a mesma água e o mesmo Sol

Em margens diferentes.

(Mas é o mesmo vento e a mesma água e o mesmo Sol!)     

E não posso fazer tanto e ser tanto ao mesmo tempo:

Não há meio termo, tal como não há meia margem…

 
                Foi por um capricho sádico que Deus
            (Ou qualquer outra dessas criaturas fora do domínio humano)

Separou as margens simbióticas:

Para cá há sempre um lá,

Para cada luz há uma sombra

E para ser verdadeiramente a margem direita,

Ela tem que ter uma margem esquerda.

            De quem é o senhor, se não tiver servo?

Metade Incompleta do Ser, o senhor é o servo do seu servo.

 

                Assim sei que para a minha margem, há uma Outra que eu não vejo,

Mas sinto.

Sinto que onde a minha margem acaba, inicia-se Outra,

Necessariamente um outro Eu,

Tal como eu sou necessariamente a Outra Margem.

            Onde eu sou senhor do meu servo e servo de meu senhor.

 

                Mas esta Outra eu não conheço, tal como não me conheço,

Pois é uma margem longínqua. Distante. Escondida entre a bruma.

 

    Como tal, quando eu morrer,

E o meu corpo deixar de responder a estímulos carnais

E a minha mente não mais se apoquentar de margens e rios,

Aí, quando eu parar de ser e não mais me modificar,

Dividam o meu corpo em dois.

Coloquem-me em cada margem do rio

E aí serei tudo e estarei em tudo,

Serei a margem direita e a margem esquerda,

Simultânea e eternamente.


David João

música: Postcards From Italy - Beirut
reflexo de turma 12º 12 às 18:56

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2 comentários:
De Terry C. a 16 de Dezembro de 2007 às 15:46
é tramado...
nem quero pensar... prefiro morrer atropelado...e primeiro...
De Terry C. a 1 de Janeiro de 2008 às 18:55
porque raio escrevi eu aquele comentário? lame

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